#OccupyWallStreet: os noventa e nove por cento

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“Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível?”.

As palavras descritas acima fazem parte do discurso do filósofo esloveno Slavoj Žižek, feito em 2011, na cidade de Nova York, ao acampamento de manifestantes do movimento Occupy Wall Street que protestavam contra a situação socioeconômica nos E.U.A. Leia o discurso na íntegra

A “mobilização dos 99% contra 1%” – parcela da população afetada pela crise econômica e social, contra os que têm dinheiro e poder sobre os demais – buscava uma alternativa ao regime econômico desigual do país. Eles dizem:
“Somos os 99%. Somos a maioria e essa maioria pode, deve e vai prevalecer. Uma vez que todos os outros canais de expressão estão fechados para nós pelo poder do dinheiro, não temos outra opção a não ser ocupar os parques, praças e ruas de nossas cidades até que nossas opiniões sejam ouvidas e nossas necessidades atendidas.” (Manifesto of the Occupy Wall Street Movement. Apud HARVEY, David 2012).

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Iniciada em setembro de 2011 o Occupy Wall Street levou 15 mil pessoas às ruas, mas foi primeiramente na internet que a mobilização começou a tomar forma, com uma ideia lançada em julho de 2011 pela revista Adbuster, uma publicação de crítica à publicidade, editada em Vancouver (Leia entrevista com o editor-chefe da revista, Kalle Lasn, ao Opera Mundi e à Carta Maior:

“O melhor a fazer era não tentar algo em Washington, mas sim em Nova York, e convocar as pessoas para ocupar o ícone do capitalismo global em Wall Street. […] Uma vez decidido que queríamos ocupar Wall Street, criamos um pôster, com a hashtag #occupywallstreet e assim que lançamos o feed no twitter as coisas começaram a ficar loucas. Passamos a divulgar os briefings táticos, enviando mensagens para as 90 mil pessoas que integram nossa rede global de ativistas e, aleluia, a ideia ganhou vida própria e agora estamos montados em um tigre” – conta Kalle Lasn, editor-chefe da revista Adbuster e um dos criadores do slogan Occupy Wall Street.

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O movimento ganhou repercussão internacional, principalmente pela estratégia utilizada nas redes sociais. Atualizações de tweets e status sobre tudo que estava acontecendo nas manifestações: as postagens de fotos, vídeos, etc. tomaram uma proporção viral, ampliando significantemente a dimensão territorial da mobilização.

No tumblr “Nós somos os 99%” (confira aqui), as pessoas contam suas histórias de sofrimento financeiro, escritas à mão e fotografadas, mostrando-as ao mundo. Surgiu até o “Eu sou o 1%, eu apoio o 99%” (confira aqui), onde pessoas ricas posam com cartazes em que contam como elas acham injusto a forma como suas famílias acumularam fortunas.

Hoje, o perfil oficial do movimento no Twitter já tem quase 180 mil seguidores, sua página no Facebook, mais de 400.000 curtidas e o movimento dos “ocupas” – acampamentos de estudantes e trabalhadores em áreas públicas de centenas de cidades – tomou proporções globais.

No discurso de Slavoj Žižek, citado no início do post, o filósofo conta que: “Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.”

Nos últimos dois anos, assistimos a uma onda de protestos em várias partes do mundo, Norte da África, países da Europa, Chile e Wall Street, Nova York e em todos esses movimentos a rede se tornou o suporte onde a “tinta vermelha” era utilizada. O ciberespaço deu lugar às inúmeras articulações, sobre os diferentes assuntos, referentes às diversas pessoas. Não se pode negar a dimensão dada ao alcance de vozes anteriormente caladas.

Confira um vídeo sobre o movimento:

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